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O que posso escrever sobre a falta de participação da grande maioria das pessoas que nos rodeiam? Posso eu, sentado à frente do meu computador, espreitando pela janela e vendo a televisão do meu vizinho, que está ligado todo o dia, chegar a alguma conclusão?
Começo por pensar nos motivos que podem levar um individuo a não querer desempenhar o seu papel ou defender os seus direitos na sociedade e as primeiras palavras que ecoam na minha cabeça são familiares: AGORA NÃO POSSO, TENHO MAIS QUE FAZER, ISSO NÃO SERVE PARA NADA MAIS VALE ESTAR QUIETO, NÃO ESTOU PARA ME CHATEAR OU A MINHA VIDA NÃO É SÓ ISTO. Esta acomodação começa por me fazer confusão na medida em que, por mais esclarecedora que seja em relação à indisposição para qualquer tipo de participação, é, ao mesmo tempo, bastante fechada nos motivos que apresenta para esse mesmo alheamento.
Uma nova recordação assola a minha mente agora ocupada em escrever e que não anda muito longe de um diálogo, quase monólogo diríamos nós sabendo da incompreensão de uma das partes, parecido com o que aqui reproduzimos:
-ouve lá, mas estás a ver-me enfiado aí todo o dia para no fim não dar em nada.
-mas já reparaste que se todos pensarem assim isto não dá mesmo em nada.
-não vale a pena fazer nada pois vai ficar tudo na mesma e eu não ganho nada com isso.
E a citação poderia continuar até ao final da página que o discurso seria sempre o mesmo fazendo lembrar, nesta escrita de recordações, uma outra citação, agora de BRECHT, em que levavam comunistas e sindicalistas, judeus e homossexuais e pouco importava e nada se fazia até ao ponto em que só vinham para quem restava e já era tarde e não havia ninguém para fazer nada.
O acto de participar em sociedade, que não se reduz ao panorama político, não requer, como à partida pode parecer, capacidades ou esforços excepcionalmente elevados. Participar em sociedade influenciando, modificando, reciclando o meio em que vivemos ou, ainda, não se ausentando destes ou de outros direitos não só deve constituir uma vontade intrínseca como postura necessária. Contudo, pensar que se pode viver em sociedade e em cidadania sem contribuir para um meio comum é uma ideia que normal e erradamente vinga. Ao mesmo tempo, pensa-se frequentemente que para participar é necessário uma grande disponibilidade que não se tem, ou grandes conhecimentos que não se teve oportunidade de obter.
Nada mais errado já que para ter uma voz basta tê-la, ou seja, para participar basta ter opinião, basta agir dentro de casa e no trabalho, basta não ser indiferente ao que nos rodeia, basta transmitir com segurança os nosso direitos. A abstenção, pelo que se percepciona, preocupa mais aqueles que menos contribuem para ela. Com estas certezas começo a recordar outros ambientes, diametralmente oposto, onde diariamente se faz e se constrói um novo cenário e uma nova cidade. Por meio de acções colectivas ou individuais deparo-me com manifestações e vontades que fazem crescer a esperança numa cidadania consciente. Registo de simples actos ou quotidianos ou de decisivas influências nos destinos da cidade, um encontro aqui, outro encontro noutro dia, vou enchendo o vazio deixado pela ausência e reencontro-me com o sem abrigo em diversas ocasiões.
E a televisão do meu vizinho continua acesa (tal como tantas outras em todo o mundo),mas eu termino o texto com esperança, e TU?
Ricardo Duarte in LX JOVEM 2001
# Colocado por PensarSardoal @ 18:25

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