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O fenómeno de exclusão social arrasta consigo, em gera, a ausência de participação. É uma situação que retira disponibilidade de actuação e cria um sentimento de insegurança, em termos de sobrevivência, e que faz do dia seguinte uma preocupação sistemática do dia que o antecede. No entanto, nem sempre a exclusão define a impossibilidade de participar e podemos, de facto, encontrar histórias marginais na cidade de Lisboa que fornecem estímulos para continuar a acreditar na possibilidade de inverter o estado negativo das coisas.
E por não se pretender uma simples reflexão pessoal sobre as razões que levam a não participar chegámos até José Silva, sem abrigo de Lisboa e vendedor da Cais que aceitou um convite da Lx Jovem. Contactado às 18:30m, enquanto vendia a Cais, mostrou-se logo disponível para o próprio dia, combinou-se às 20h à porta da Brasileira do Chiado e alertou que a conversa não podia demorar muito porque às 21h tinha que estar em Cascais para participar numa Assembleia.
A conversa desenrolou-se entre o comer de uma sopa com muito ketchup e um café. Este sem abrigo é com mais ou menos indiferença conhecido de muitos lisboetas, vende a Cais com muita frequência na estação de metro do Marquês de Pompal entre a direcção Baixa-Chiado e a Pontinha, sempre com um grande sorriso. Ficámos a saber que é natural do Porto e que foi durante 8 anos fiscal da Câmara Municipal até que um dia foi despedido sem saber o porquê. Resolveu tentar a sua sorte em Lisboa e José Silva tornou-se num sem abrigo com características muito particulares, a sua personalidade forte não desapareceu em função da nova condição de vida que o arrastou para o lado negro da sociedade.
Assume claramente que se tornou num sem abrigo por opção e em reacção à actual organização de trabalho que “persiste na continuada exploração do próximo”. Passou pela construção civil como forma de sustento e desistiu porque no final de um dia de trabalho lamentava o cansaço “que roubava as energias fundamentais para conseguir um livro, nem uma página conseguia ler”. Considera que vender a Cais permite-lhe ser um pouco mais livre e de mostrar como está zangado com o actual estado das coisas e defende que “são vários poderes políticos que instigam à não participação nas várias formas de organização social”. Também é crítico na forma como a Cais está estruturada, considerando que o seu lado ambíguo tanto dá a oportunidade de venda como ao mesmo tempo os em abrigo não têm participação criativa na elaboração dos conteúdos da revista.
A sua condição de vida não o incomoda, afirma que “constrói uma liberdade que lhe dá tempo para actuar em causas que considera serem justas”. Acompanhou de perto e participou na corrente de solidariedade que se gerou em torno da causa de Timor há cerca de 2 anos, “estive no meio dos vários aglomerados que pela cidade se formavam”. As questões ligadas ao ambiente também estão presentes no quotidiano deste sem abrigo: faz parte da Quercus, participa em reuniões dando os seus pontos de vista e curiosamente esta conversa não foi mais longa porque José Silva que é um sem abrigo, que vende a Cais na estação de metro do Marquês de Pompal entre a Baixa Chiado e a Pontinha, já estava atrasado para uma reunião em Cascais sobre questões ambientais.
Pedro Barros in LX JOVEM 2001
# Colocado por PensarSardoal @ 18:38
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